segunda-feira, 25 de junho de 2012

Interpretação da Música "Língua" de Caetano Veloso

                 O que Caetano deseja passar através desta letra de música é:
               Ele cita Luís de Camões para demonstrar a apreciação pelas obras, poemas, estilo de Camões, e até mesmo é possível que ele tenha Camões como inspiração e talvez cite em sua músicas.
               O conjunto de expressões que compõem o refrão constrói a imagem do que é a língua portuguesa dentro da nação brasileira: língua nova, composta de aportes, neologismos, estrangeirismos e variedades lingüísticas.
             Na segunda estrofe, Caetano insere a primeira pessoa do plural: “Vamos (...)/ Sejamos (...)”, que remete à voz típica daqueles que promovem uma campanha em favor de uma conscientização ou que querem convencer por um outro motivo. Caetano demonstra o objetivo de conscientizar o sujeito interlocutor para que não deixe de valorizar a língua nacional, chamando atenção para “a sintaxe dos paulistas” / “o falso inglês relax dos surfistas”, chamando a atenção para a influência dos estrangeirismos, que são próprios da língua brasileira. “Sejamos imperialistas” clama pela participação dos sujeitos interlocutores, trazida pela voz da ideologia de conscientização. Nesse caso, com relação à língua nacional, que deve predominar perante a língua estrangeira. Além disso, essa expressão lembra as exclamações da ideologia de luta de classes, que são manifestadas pela luta de direitos.
             Outra marca, que remete ao exterior discursivo nesta estrofe, é a variedade de língua representada nesta estrofe: “Vamos na velô da dicção choo choo de Carmem Miranda”. Uma das grandes tendências do homem moderno é a de reduzir as palavras, transformando-as em neologismos, em virtude da rapidez das informações. Assim, as palavras vão perdendo sílabas, a fim de permitir uma comunicação mais rápida, como no caso de velocidade, representada pela própria metáfora: “velô”. “Velô” remete também ao nome de família de Caetano Veloso, como forma abreviada.
           A citação de “Carmem Miranda” remete também à construção de outro sentido: Carmem Miranda foi a cantora portuguesa que saiu do Brasil, permanecendo nos Estados Unidos. Seu inglês era com sotaque português, a expressão “dicção choo choo” ironiza o sotaque adquirido pela cantora, no qual remanescia, no lugar do som linguodental, o viciado.
            Nesta mesma estrofe, Caetano traz o nome de uma emissora de TV que é referência nacional, a “TV Globo”, e pede: “Ouçamos com atenção os deles e os delas da TV Globo”/ “Sejamos o lobo do lobo do homem”, chamando a atenção para que o sujeito interlocutor não seja mero receptor, mas que analise o uso da língua que é transmitida pela TV.
         A expressão “lobo do lobo do homem” permite também construir sentidos relacionados à antropofagia oswaldiana. Ser o “lobo”: ouvir com atenção tudo o que é dito pela TV Globo e assimilar no velho o novo.
           Caetano faz citações também dos nomes: “Scarlet Moon”, jornalista e atriz carioca, que acompanhou o nascimento do rock pop; “Glauco Mattoso”, poeta, ficcionista, ensaísta e articulista em diversas mídias; “Arrigo Barnabé”, compositor singular da Música Popular, com características que vão do dodecafonismo à atonalidade; e “Maria da Fé”, poeta portuguesa que se dedicou a ler e a escrever desde muito nova, e que era admiradora de Antero de Quental e de Fernando Pessoa.
        A terceira estrofe inicia-se com uma exclamação: “Incrível!”, expressão que constrói o sentido de ironia, voz sempre presente quando diante de situações aparentemente sem solução. Depois de apresentar um rol de escritores na estrofe anterior, o sujeito enunciador ironiza, afirmando: “Incrível! É melhor fazer uma canção/ Está provado que só é possível filosofar em alemão/ Se você
tem uma idéia incrível é melhor fazer uma canção”.
         Neste caso, ele parte da referência a um filósofo alemão: Friedrich Nietzsche. Segundo o filósofo alemão (1978 apud Gama, 1995), a linguagem, dada a sua própria natureza de lei, estará sempre a demonstrar o poder dominador sobre o grupo de falantes dominados. Dessa forma, retoma novamente o tema das lutas de classes e o tema de que a língua nacional é tão superior quanto à língua
estrangeira.
         Tomando a referência anterior, é possível construir o efeito de sentido de que a canção é uma das principais fontes para se veicular a ideologia. Por meio da música, é possível dizer, construir a realidade, mostrar as contradições, criticar e poetizar, características marcantes da música de Caetano.
         Em “Blitz quer dizer corisco, Hollywood quer dizer Azevedo”, Caetano coloca termos da língua inglesa com significados aleatórios. Podemos inferir que se trata de uma ironia em razão do uso aleatório de estrangeirismos dentro do Brasil. Neste caso, para o sujeito enunciador, a língua nacional deve ser investida de significados por e para sujeitos, ainda que existam as variedades lingüísticas.
No próximo verso, “E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo!”, a repetição confere ênfase à preocupação que o sujeito tem em relação ao seu país. O “Recôncavo” faz referência ao Recôncavo Baiano, à Bahia
           Reconhecida historicamente como o princípio da identidade brasileira. Daí as rimas “Azevedo” e “medo”, graves, sofrerem o eco esdrúxulo em “E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo”, reiterativo, polissindético.
               Em “A língua é minha pátria e eu não tenho pátria: tenho mátria/ E quero frátria”, Caetano retoma Bernardo Soares (Fernando Pessoa): “Minha pátria é a língua portuguesa”, invertendo a ordem sintática e ironizando, concluindo que não tem pátria, tem “mátria”, fazendo referência ao Hino Nacional, letra de Joaquim Osório Duque Estrada: “Dos filhos deste solo és mãe gentil”.  Conclui, criando um neologismo: “frátria”, que estabelece uma relação de sentido com a palavra ‘fraternidade’, voz que expõe o desejo de Caetano Veloso em ver a língua nacional e as demais línguas em fraternidade, pois todas significam, apenas produzem discursos diferentes, significam diferente.  O sujeito enunciador traz ainda para a canção uma série de outros registros  discursivos, remetendo a diversas outras vozes exteriores ao discurso como:  “Tá craude brô/ Você e tu lhe amo/ Qué qu’eu te faço, nego?/ Bote ligeiro/  Arigatô, Arigatô”, registros da linguagem coloquial comumente encontrada em  diferentes regiões do Brasil, berço que acolhe as etnias e variedades lingüísticas  ímpares.
             Na expressão: “Nós canto-falamos como quem inveja negros”, Caetano metaforiza a fala dos brasileiros, incluindo-se por meio da marca lingüística de primeira pessoa do plural ‘nós’. Faz, também, uma comparação com a fala dos “negros que sofrem horrores no gueto do Harlem”, bairro de Nova York, onde a maioria é de negros, que estão fora, portanto, de sua origem étnica.  A expressão “canto-falamos” remete também à característica da voz do rap (rithm and poetry), música dos negros americanos que se caracteriza pelo canto-falado (anos depois, Caetano faz um filme Cinema Falado). O rithm and poetry é a música do Harlem.
              A partir da seqüência: “Livros, discos, vídeos à mancheia/ E deixa que digam, que pensem, que falem” é possível inferir que o sujeito quis reafirmar a língua nacional como cheia de vida. Que é possível falar dentro dos livros, dos discos e dos vídeos. Estes meios de comunicação transmitem, respectivamente, o texto escrito, a música e o texto oral (programas de TV, filmes, telejornais). Por meio  deles, é possível falar todas as línguas, refletir ideologias, construir sentidos, ser fraternos diante da imensa variedade lingüística presente no país.  
              A preocupação dos lingüistas com relação à lingüística aplicada, e os estudos voltados para a pragmática e para a sociolingüística, começou a ter um papel  progressivamente mais visível a partir da década de 80 (MARCUSCHI, 2004, p. 280). A letra da canção comprova, por meio do uso das citações, das  metáforas, das alusões, da pluralidade de vozes, a existência de um sujeitoenunciador que está perpassado por uma ideologia. Caetano reflete sua preocupação com o uso da língua, que deve ser feito a partir de cidadãos críticos, sabendo discernir o que é o bom uso, do que é mera cópia, e que por isso, não constrói sentidos. Há sentidos a partir do intenso e intermitente jogo polifônico, carnavalizado, avatar das múltiplas intertextualidades.

Fontes: http://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20090212082703AAkhQZW

3 comentários:

  1. Menina.. do Céu!! Vc arrasou!!
    ADorei, visitar seu blog. Ele é alegre e de uma profundidade literária de babar...uma leiga no assunto (como eu) ... mas de uma sensibilidade e bom gosto apreciável.
    abraços

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  2. Olá. Hollywood quer dizer Azevedo, sim. Abs

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